CONHEÇA: "REZADEIRA - O CASO DA FAMÍLIA CABRAL"

COMO CONHECI O MORADOR DE RUA COM SUPOSTA TITULAÇÃO DE DOUTOR

Imagem: Reprodução / Textos, Contextos e Reflexões

Andei apressado até a avenida de pavimentação asfáltica da minha cidade, Crato, localizada no interior do Ceará, e aguardei o momento certo para atravessá-la. Interessante como uma quebra na rotina nos faz perceber a realidade ao nosso redor com maior sensibilidade. Ela nos demanda mais atenção, parece. Na manhã da sexta-feira em questão, ensolarada, com tempo ameno, o meu carro apresentou algum problema e eu optei por ir ao curso de inglês usando o ônibus das oito e meia.

Ao meu lado chegou um homem de idade, branco, com barba e cabelos compridos, grisalhos. Ele usava uma calça jeans velha, camisa regata azul rasgada e chinelos surrados, tão imundos quanto a sua própria pele. Tinha os ombros curvados para frente e olhava para baixo, para o asfalto sujo, como se a beleza do céu não merecesse ser admirada pelos olhos sem cor. O homem fedia a carne estragada, eu esperava de coração que não fosse a carne dele.

Os poucos carros passaram e nós atravessamos a Avenida Joaquim Pinheiro Bezerra de Menezes. Ele, sem pressa, sem compromissos, provavelmente sem certeza do que faria em seguida. O que mais me chamou atenção no morador de rua foi o jaleco branco que usava, era quase limpo, comprido, na altura dos joelhos. Não sei onde o conseguiu, mas eu tiraria o meu jaleco de doutor, caso fosse doutor, e então o colocaria sobre os ombros de um mendigo “de bem”, pois se as aparências tornam um sujeito digno, este seria um gesto simbólico.

Sentei no banco do ponto de ônibus da Praça Asa e observei cada movimento lento e desprovido de energias do senhor de estatura média. Ele andava em direção a um restaurante pacato da esquina. Era provável que quem tivesse lhe dado o jaleco também havia o presenteado com dinheiro. Chegando à calçada, entretanto, olhou para dentro do restaurante e não entrou; encarando o chão, seguiu a caminhar pela calçada. Suas mãos estavam vazias, nenhuma esmola entre os dedos ossudos.

Um vento frio derrubou algumas folhas secas das árvores na calçada sobre a qual o sem teto andava. Ele demorou um pouco atrás de um alto carro, uma hilux parada no acostamento, porém reapareceu do outro lado. Cheguei a imaginar a permanência dele ali escondido... em contra partida, supus: ele não sentia vergonha de ninguém. O costume tem esse poder, não?!

Há quanto tempo ele andava na rua? Onde estava a sua família? E seus amigos? Por que ele não tinha um emprego que lhe possibilitava melhores condições de vida? Ele sabia ler? Concluiu o ensino médio? Tinha uma faculdade? Perdeu todas as conquistas ou nunca conquistou nada? As interrogações ficaram flutuando dentro dos meus pensamentos enquanto o senhor virava na esquina mórbida e desaparecia para sempre do meu campo de visão.

E eu fiquei sentado no banco duro de concreto, usando o smartphone caro comprado no dia anterior mesmo. Fiquei com uma agulha no fundo do coração como castigo por não ter ido à procura das respostas para as perguntas surgidas, ter praticado solidariedade, em vez de entrar no ônibus e seguir a rotina monótona dentro de uma sala de aula. Por ter agido como todos os outros, quando eu, naquele dia, já tinha quebrado uma parte da minha rotina e me recusei a quebrar todo o resto.

Carlos Rodrigo

Escritor. Blogger. Graduando em Jornalismo. Autor do conto "Rezadeira - O Caso da Família Cabral".

2 comentários:

  1. Gostei! Está de parabéns, vai fazer sucesso na revista da UFCA! Não é babação de colega de curso não, viu? 😘

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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