CONHEÇA: "REZADEIRA - O CASO DA FAMÍLIA CABRAL"

Objetificação e descarte, uma realidade na terceira idade

Calixto, deficiente visual morador da Comunidade Recanto da Paz.

Em Crato, Ceará, na Vila São Bento, onde a poeira sobe com facilidade das ruas de terra, sem calçamento, encontra-se a conhecida “Comunidade Recanto da Paz”, razão social: “Casa de Acolhimento e Assistência ao Idoso”. O projeto foi fundado em  2016 por Francisco de Assis e Gilmar da Silva em substituição ao seu precursor, que se direcionava à reabilitação de usuários de drogas, iniciado também na vila São Bento, no ano de 2000. O motivo da extinção do projeto anterior, segundo Gilmar, foi a falta de condições financeiras da equipe organizadora para mantê-lo. Agora, além das doações, a Comunidade Recanto da Paz conta com o dinheiro da aposentadoria dos seus moradores. Embora não seja sempre o suficiente para arcar com tudo (alimentação, medicamentos, produtos de higiene, profissionais que trabalham na casa, aluguel da casa, etc), ainda é possível manter o lugar com esforço.

O estabelecimento conta com dois imóveis na propriedade arborizada; um grande dormitório coletivo, onde cada um tem sua cama, armário e pertences, e uma casa dividida da seguinte forma: um escritório para a equipe organizadora, recepção, cozinha, dispensa, banheiro e varanda. Além disso, parte do pequeno terreno é reservada a policultura destinada ao consumo próprio. O cultivo dos vegetais fica sob a supervisão do tesoureiro “Tico”, são eles manga, cajú, acerola, banana, mamão, quiabo, feijão, macaxeira, e erva cidreira para o chá cotidiano.
A estrutura de alvenaria é simples, segue o modelo parecido do que comumente se encontra em sítios da região. Tetos divididos em duas águas, piso de cimento queimado, paredes brancas, varanda ao redor… Não dispõem de uma estrutura voltada a acessibilidade. Tudo é muito bem limpo e organizado. A propriedade é cercada por um muro de cerca de 2,5 m.
O presidente do atual projeto é o Francisco Gilmar da Silva. Ele chegou a casa de acolhimento em 2009. Antes pastoreava a Igreja Luterana em Mauriti / CE, até que o presidente do antigo projeto, também pastor, o convidou para ajudar no trabalho com os dependentes de “álcool e drogas”. Gilmar, então, conseguiu um substituto para si na igreja da qual fazia parte e se dedicou integralmente ao convite do amigo. Participou das mudanças que ocorreram posteriormente e na definição do trabalho que desenvolveriam; Houve um estudo antes de iniciarem as atividades. Na cidade não existiam projetos de acolhimento para idosos de ambos os sexos, apenas feminino, apesar da constatada demanda para o sexo masculino também. Hoje, a Comunidade Recanto da Paz asila 20 idosos e somente aceita do sexo masculino, para compensar a demanda não atendida na cidade.
A principal mudança constatada após a transição, segundo Francisco Gilmar, é que depois de alguns meses se espera a recuperação e retorno dos dependentes ao seio da família, reintegração a sociedade. Com os senhores de idade a filosofia é totalmente diferente; além do cuidado distinto, é necessário atenção constante até onde for possível oferecê-la.
Sentada na varanda do imóvel, a técnica em enfermagem Eliângela Sampaio, 36 anos, contou que foi convidada por sua irmã para trabalhar na Comunidade quando estava no fim do seu estágio. Durante o curso, sempre se interessou e dedicou mais à área de saúde coletiva, logo, foi uma boa oportunidade. O trabalho proporcionou a Eliângela um vínculo com os moradores da casa de acolhimento. Todos os técnicos fazem plantões de 12 horas (alternando os dias da semana entre eles). Ela confessa ser puxado o trabalho, pois, além de um deficiente visual, a maioria dos idosos tem problemas de locomoção e fala; a comunicação é difícil, como com crianças que ainda não aprenderam a falar, mas tem suas vontades e necessidades a serem atendidas. É de suma importância muita atenção e paciência; isso Eliângela afirma poder oferecer. Ela conhece cada um dos senhores, seus nomes, costumes e personalidades. 

Dôra trabalha na Comunidade Recanto da Paz há 1 ano

Como uma boa família envolve muito amor, nessa família, formada a partir da Comunidade, não é diferente. A cozinheira Maria das Dores, contou que aquela é a sua segunda casa e brincou ao confirmar que na sua cozinha só quem pode mexer é ela. Mesmo quando está fora do expediente, com suas preocupações particulares, “Dôra”, como a chamam, se vê imaginando sobre o que está acontecendo dentro da casa de acolhimento. Lá ela não apenas cozinha, se os técnicos precisam de ajuda em outros cuidados com os idosos, a mulher se faz presente para oferecer esforços extras.
Enquanto Maria das Dores preparava o almoço, disse como funcionava a alimentação do local. O cardápio é variado, para proporcionar riqueza em ternos de nutrientes e evitar enjoo de algum alimento. Sucos e vitaminas compõem as bebidas oferecidas. Tudo natural, por vezes proveniente do que é cultivado lá mesmo. 

"Eu que não deixaria meus pais aqui! Cuidaram de mim a vida inteira... O mínimo que posso fazer é retribuir o amor" diz Tiânia.

A auxiliar de limpeza Tiânia, em uma conversa na lavanderia, explanou sobre o amor e dedicação envolvidos no projeto, mas não deixou de lado a fatia negativa da situação. A maioria dos familiares dos idosos vai lá, toma conhecimento das situações e ajuda quando pode. A triste realidade é que alguns deles não recebem visita nenhuma; simplesmente foram abandonados para ali se asilarem.
Os casos de acolhimento são diversos. Uns foram deixados pelos familiares, para sempre ou por certo período, devido à impossibilidade de tempo para cuidar. Outros estão ali por determinação judicial, por denúncia de não terem tido mais capacidade de morar sozinhos, ou por terem sofrido maltrato. Naquela amanhã, o semblante dos idosos era de cansaço. Alguns sorriam ao conversar, outros cochilavam sentados. Metade deles assistia ao seriado do Chaves em uma varanda, enquanto, em outra, o restante descansava sentado em silêncio. Durante a semana, passam o tempo assistindo televisão ou com jogos, como dominó.
A exceção dos que assistiam ao seriado na varanda com tevê, era o cadeirante Valdemar. Ele lia uma revista, debruçado sobre a mesa repleta de impressos, revistas, jornais e livros. Mas seu gosto pelas palavras não estava na literatura, que era o impresso predominante na mesa. O interesse dele era jornalismo; ler notícias policiais ou reportagens culturais. Valdemar explicou que morava no Bairro Seminário, dando a entender que não estava ali por muito tempo. Logo que lhe foi solicitada uma foto, advertiu ser preferência se manter no “anonimato”, como se acreditasse no seu potencial para ser uma figura célebre, então apenas aceitou ser fotografado com o rosto fora do enquadramento.
 

Ao conhecer a Comunidade Recanto da Paz, é visível a dedicação e força de vontade em fazer o bem por parte de todos os envolvidos. Cuidar de pessoas na terceira idade que não cabem na rotina de suas próprias famílias não é um fardo; é tido como uma alegria, um objetivo de vida ou uma missão divina. Apesar disso, é importante ter o conhecimento de que ajudas são sempre bem-vindas, uma vez que nem tudo são flores e as doações recebidas hoje são insuficientes.
Sobre sua experiência no lugar, o presidente Francisco Gilmar, concluiu com um discurso sobre aprendizado, fé e gratidão a Deus, pela missão que lhe foi confiada. A vida é muito “fácil” enquanto temos saúde, família e amigos. Com a chegada da velhice, a estabilidade pode evaporar. “Muitas vezes nem a própria família lhe quer mais no ceio. Não quer mais tá ali junto de você; muitas vezes parece que acaba a responsabilidade com você; você se torna um objeto e não mais um ente querido! E é por isso que eu dedico meu tempo. Deus me deu tempo. Dedico tudo o que Deus me proporcionou pra isso, sabe?! Deus me deu um 'resto’ de saúde e eu quero ir até onde não puder mais” disse Gilmar, “pra mim, cuidar de vidas, de almas, é importante. Eu não vivo, eu não consigo viver sem isso; pra mim é tudo”.
 

O ser humano nasce, cresce, reproduz e morre. É este o ciclo ensinado nas aulas fundamentais de ciência. Durante a passagem do processo acontece algo inevitável: o envelhecimento. A expectativa de vida cresceu no Brasil em seus últimos anos, então o número maior de cidadãos na terceira idade é uma consequência. Parte deles estão em asilos, casas de acolhimento. Por mais que seja duro dizer, a realidade é que, tomando como exemplo a Comunidade Recanto da Paz, muitos apenas aguardam morte. Se estão ali por erros cometidos, é pauta para reflexão o merecimento da morte com desprezo por parte daqueles — possíveis filhos e netos — com quem talvez compartilharam amor em algum momento. É um assunto muito delicado e por vezes particular. Mas algo é certo, os asilos estão enraizados em nossa cultura.

CONTO DE HORROR, REZADEIRA, GANHA ADAPTAÇÃO PARA ÁUDIO PEÇA



Não tem como me conhecer e não conhecer Rezadeira - O Caso da Família Cabral, porque é uma publicação minha que trato praticamente como um filho, parido em 2016 na Amazon e hoje disponível em formato físico para vendas. A adaptação ainda não foi lançada (previsão para o fim deste mês), mas já temos um teaser disponível no YouTube. foi roteirizada e produzida durante o fim de outubro e início de novembro, com orientação da querida professora do curso de Jornalismo da UFCA, Débora Costa. O roteiro é fruto de um trabalho meu em parceria com Sávio Emanuel. A produção ficou por conta de Espedito Duarte, Deize Lisboa e Richardson Leite (sem contar que eles deram ótimas sugestões para aperfeiçoar o roteiro), sendo que os dois últimos também integraram o elenco composto ainda por: Placido Andrade, Emily, Emanuel Máximo, e eu (que fiz uma curta participação). O trabalho de edição esteve nas mãos do técnico Paulo Victor.

A adaptação gerou um resultado realista e cheia de efeitos especiais. Pra quem curti podcasts, áudio book, rádio, creepypastas ou queira alguma experiência com produções sonoras, vale muito, muito a pena. O trabalho da equipe ficou incrível. Segue abaixo o vídeo incorporado do YouTube (ah, a peça completa será publicada lá, então se inscreve e clica no sininho pra receber a notificação quando sair, tá bom?! <3 ). Não esquece de comentar o que achou do Teaser ^^


REZADEIRA EM LANÇAMENTO DE VENDAS NA "FEIRA DO PÁTIO" DURANTE A IV MOSTRA UFCA

Foto: Raoni Bezerra
Durante a IV Mostra da Universidade Federal do Cariri, meu conto de horror, Rezadeira - O Caso da Família Cabral, teve suas vendas iniciadas integrado a Feira no Pátio. A experiência foi ótima, pude conhecer novas pessoas, apresentar o meu trabalho e conhecer outros trabalhos artísticos também. Eu poderia ter organizado um evento especialmente para o lançamento do meu conto em outro momento, porém acredito que não teria o mesmo impacto. Pessoas de diferentes gostos e faixas etárias passaram pela IV Mostra UFCA, então pude observar a reação de um público variado ao ver o banner e os exemplares. As vendas foram maravilhosas e eu ainda ganhei presente de uma amiga leitora.

Rezadeira - O Caso da Família Cabral é o primeiro de uma série de contos que pretendo lançar sob o selo da minha editora imaginária (Editora Poente; deixam nos comentários caso queiram saber mais sobre ela). Trata-se de um conto lançado isoladamente em um pequeno livro de 35 páginas. É um formato de publicação no mínimo autêntico, já que contos geralmente são publicados, de forma física, em antologias. Gostei dessa maneira de publicar e ela tem demonstrado uma boa aceitação; Rezadeira terá 4 ou 5 volumes.